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A Perna Cabeluda

Raimundo Carrero

[Diário de Pernambuco, Recife, 01 / 02 / 1976]

O repórter, apressado, nervoso, entrou na redação do jornal. Colocou o papel na máquina, mas estava de tal forma agitado, que não sabia como escrever. Percebendo sua indecisão, o editor procurou saber o que estava acontecendo. Gago, voz presa na garganta, precisou de alguns segundos, ainda, para ordenar as palavras. “A perna cabeluda está em Olinda” disse, esperando a reação do chefe. Uma pessoa fora agredida, levara três pernadas no pescoço, uma na barriga, sangrando fora socorrido por populares e estava agora no Hospital da Restauração. E não fora a única vitima. Invadira também a residência de uma bela moça, não respeitara pai nem mãe, com uma rasteira derrubou-a no meio da sala e diante dos olhos estarrecidos da família, que não sabia como reagir, praticou agressões.
Foi um corre-corre na rua, gente chamando a polícia, mulher chorando abraçada com o marido, irmãos e parentes, as mais piedosas e religiosas rezando nos pés dos santuários. A pobre moça, coitada, gemia, gritava, pedia proteção. Não era fácil, no entanto, agarrar a perna. Ágil, saltava para todos os lados. Teve um rapaz, herói anônimo, que ainda pulou a janela da residência, mas nada pode fazer porque logo recebeu uma violenta pernada na cabeça, caiu sangrando, batendo quase morto. A perna cabeluda somente se deu por vencida quando foi escutado o gemido do carro da polícia. Saiu correndo pela porta dos fundos, meteu-se numa rua estreita, atravessou um beco e desapareceu num matagal. Os homens da rua, penalizados com o choro da moça, formaram logo uma “coluna”, armaram-se de facas, revólveres, pedaços de pau e saíram em sua perseguição. Nessa hora os policiais já vinham chegando. Juntaram-se aos guerreiros, saíram em busca da perna criminosa. Foi que um guerreiro mais afoito, que corria em frente de todos, armado com um revólver, uma peixeira, e um canivete, deu um grito, caiu sangrando, o corpo todo dolorido. No escuro não pôde ver a perna cabeluda escondida atrás de uma moita. Vingativa, não apenas deu-lhe uma rasteira, como chutou sua boca e ficou pulando sobre seu peito. Os outros homens correram em seu socorro, mas havia a surpresa: confundindo-se com a escuridão, a perna pulava mais que saci-perêrê, agilíssima, de um lado para o outro, cai aqui, cai aculá “ela está aqui” “ela está ali”, um caindo por cima do outro, cabeça lascada, braço quebrado, barriga rasgada. Pior foi quando começou a chover. Trovões, relâmpagos, muita água, sangue correndo na lama. Confundindo-se, os guerreiros agrediam-se, esmurravam-se. Um fuzuê dos diabos. Quando a perna decidiu desaparecer, ouviu-se uma gargalhada medonha, três soluços e um arroto.
Derrotados, os guerreiros retornaram para casa, feridos, alguns em macas, os policiais jurando que ela seria presa ainda aquela noite, todo contingente seria acionado, não haveria escapada. Quando entraram na rua iluminada, as mulheres esperando nas janelas – umas chorando, outras conversando agitadas -, parecia uma procissão de desgraçados. O socorro foi logo providenciado. Mesmo no carro da polícia os mais feridos foram conduzidos para o hospital. Parecia o fim do mundo, correu um boato na rua que era o início do apocalipse, era preciso começara rezar com muito fervor, pois uma multidão de estrelas já se precipitavam do céu e uma legião de mortos vestiam os seus corpos para sair dos túmulos, cobrando promessas aos vivos. As moças choravam, os rapazes corriam para ir à igreja, queriam se confessar. Teve cabeludo que raspou o cabelo, afrouxou as calças e vestiu o terno. As mulheres cobriam as barriguinhas e encompridavam os vestidos.
Mas foi que a agitação cresceu mais ainda, quando já se imaginava que era chegado o momento de dormir sossegado. Os gritos de uma mulher foram escutados, misturados com uma pancadaria, voz de homem furioso berrando. De repente, a mulher foi atirada na rua, bateu com a testa no chão, quebrou a cabeça. O homem furioso apareceu com um revolver na mão. Foi logo contando: chegara em casa cansado, louco para dormir, e quando entrou no quarto, o que viu, ao lado da mulher, estava deitada a perna cabeluda, morrendo de rir. Perdeu a paciência, puxou a mulher pelos cabelos, esfregou-a na parede. E a perna gargalhava, dava saltos em cima da cama, dançava samba, rumba e frevo. Insatisfeita, ainda deu-lhe um chute na barriga e saiu correndo. Ninguém mais podia se conformar, era mesmo o fim do mundo. Mesmo os mais afoitos não se decidiam a perseguir a malvada. Socorreram, no entanto, a mulher ferida. Vários carros da policia apareceram para proteger o povo da rua. Os policiais traziam metralhadoras, canhões, revólveres, gás lacrimogêneo, o diabo. Armaram esquemas, trancaram as ruas, esquinas, vielas. Desistiram, porém, quando surgiu a notícia, ninguém sabe quem deu: a perna cabeluda estava pintando o diabo em Boa Viagem. ”

Alguns anos antes….

Entre as lendas urbanas mais curiosas do Nordeste está sem dúvida a da Perna Cabeluda, uma entidade sobrenatural que teria assombrado as ruas do Recife durante a década de 1970. Aparecendo onde menos se esperava (e por falar nisso, onde é que alguém esperaria que aparecesse?), esta criatura era o oposto-simétrico do Saci Pereré. Ou seja, era uma perna-sem-pessoa, em vez de uma pessoa-sem-perna. Surgia pulando (eu já ia dizer ôpulando num pé:), atacava os transeuntes, dava chute em todo mundo, e depois fugia pulando.
Foi cantada em verso e em prosa. Apareceu como protagonista em folhetos de cordel como “A Perna Cabeluda de Tiama e São Lourenço de José Soares, inclusive um em que ela enfrentava outra criatura mítica: A véia debaixo da cama e a Perna Cabeludão de José Costa Leite. Apareceu também em um vídeo de Marcelo Gomes, “A Perna Cabeluda” (1995). Figurou em shows de Chico Science & Nação Zumbi: Chico dançava com uma perna de pano estufada, e depois a jogava no meio da platéia. Eu próprio a utilizei como tema num curta para TV de 40 minutos para o programa “Viva Pernambuco”, em 1996, dirigido por meu amigo Romero de Andrade Lima e Cláudio Assis.( esse ultimo é meio pirado fez um filme de muito mal gosto chamado Amarelo Manga, Aline se você e meuos ouitros 9 leitores ver esse filme, aquilo é ficção forçada viu)
A Perna Cabeluda é um bom exemplo de como surgem essas criaturas folclóricas. Uma vez eu estava em Recife conversando com o escritor Raimundo Carrero, que me deu uma versão para o surgimento dessa lenda. Ele e Jota Ferreira tinham um programa de rádio (pelo que me lembro ele era redator e Jota Ferreira o apresentador, mas posso estar enganado, afinal eu era muito criança mas lembro do bafafa…). E uma noite, entre uma música , meu avó era um ficcionado em rádio, e depois de uma ou outra deram uma notinha humoróstica, mais ou menos assim: “Pois é, meu amigo, a vida no Recife não anda nada fácil!…

Chega agora a nossa redação a notícia de que Fulano de Tal, guarda-noturno, chegou em casa depois de uma jornada de trabalho e deitou-se para dormir ao lado de sua esposa. Ouviu um barulho, e ao olhar para baixo viu uma perna cabeluda embaixo da cama!”A intenção era sugerir, com a imagem da perna cabeluda, a presença do Urso ( no nordeste significa amante da esposa) A nota provocou muitos risos, e no dia seguinte, eles voltaram á carga. E atençao, minha gente… Sicrano de Tal, morador da Imbiribeira, chegou em casa de viagem, e para sua surpresa viu a perna cabeluda fugindo pela porta da cozinha! E aí não parou mais. Usada inicialmente como uma sinídoque visual (a parte pelo todo), a perna acabou ganhando vida própria.

Isto não quer dizer que qualquer coisa inventada vire automaticamente uma lenda. Neste caso específico virou porque a imagem resultante ficou ao mesmo tempo absurda e engraþada, ou pelo menos assim pareceu A galera onde a história comeþou a circular (ouvintes de rádio dos suburbios recifenses). Imagens e figuras semelhantes são lançadas diariamente no caldeirão cultural. Mais um processo aleatório. Umas pegam, outras não. A Cultura popular talvez se defina por este aspecto aleatório, onde não se pesquisa, não se planeja, e as criações dÒo certo meio que por acaso. A verdade é quem em pouco mais de 30 anos a “`Perna Cabeluda” teve mais de 5000 vítimas, gente que jurava que teve um filho com ela, com foto documetada em jornal e tudo…

James

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