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Le Nozze di Figaro

a Mariana Garbuglio

Queriafalar um pouco de Mozart.

MozartGanhei um CD, depois de participar de uma espécie de “quiz” em um site, com as Bodas de Fígaro. Já a conhecia há tempos e não é nem a minha primeira gravação, nem a segunda, nem a terceira, mas quinta que tenho dessa obra. Porque eu tenho tanto? Um pouco por sorte de ganhar alguns concursos e heranças, mas também porque eu considero Le Nozze a maior ópera de todos os tempos e uma das grandes manifestações artísticas do século XVIII, se não a maior delas. E se há algum “concorrente”, é Don Giovanni, composta um ano depois, em 1787.Porque eu coloco esta ópera em tão alto nível? As razões são diversas, a começar, desagradando Salieri, delle parole. Poucas peças de teatro do fim do século XVIII podem ser comparadas a Le marriage de Figaro de Pierre Augustin Caron de Beaumarchais, seja pelo seu tom de tragicomédia (o autor foi fortemente influenciado por Lope de Vega, especialmente por Peribaí±ez y el comendador de Ocaí±a, que merece um post por aqui), seja por sua intriga ser a única legítima descendente de Molií¨re. E da Ponte compôs a partir deste um libretto, extremamente fiel, enxuto e livre dos trocadilhos, assonâncias de mal gosto que os libretistas da época tanto copiavam de Metastasio. Mozart pode se vangloriar de ter tido três excelentes libretos, número que talvez nenhum outro compositor pode ostentar, mas de todos, o de Le Nozze é o literariamente mais rico.E poi, la musica, é inegável que o jovem Mozart não merece ser tratado com desdém, pois sua obra é extremamente interessante, rica e vívida, entretanto, também parece inegável que o Mozart maduro é um dos maiores artistas de todos os tempos, e, de certa forma, Le Nozze é, não a marca da maturidade, mas seu primeiro grande auge.Nesta ópera Mozart introduz uma técnica extremamente eficiente e sutil que é carcterizar os personagens, não por meio de temas musicais, mas ritmicas, cada um dos quatro protagonistas, Figaro, Susanna, Conde e Condessa, mas especialmente as mulheres, têm características rítmicas marcantes, e estas características são derivadas das óperas que forneceram os personagens, ie. Fígaro e Susanna têm padrões buffos e o Conde e a Condessa de opera seria. Daí também sai o tipo de ária que eles cantarão, o que não significa que as árias sérias serão “trágicas” ou as buffas cômicas, Mozart brinca com isso de forma às vezes inacreditável: Cherubino que está sempre no âmbito “cômico”, canta uma ária derivada diretamente da tradição da opera seria “Non so pií¹ cosa son, cosa faccio”. Nós podemos encontrar outros exemplos de ária em sol menor com acompanhamento ostinato das cordas na Clemenza di Tito ou, para um exemplo mais fácil, a “ária” do primeiro movimento da sinfonia K. 550 (40).Um outro exemplo de como nessa ópera Mozart está lidando com a tradição é o dueto “Crudel, perchí¨ finora” no início do terceiro ato, a ambientação, a música e o próprio tema está completamente na ópera seria, mas o texto já é cômico, e a situação acaba se tornando extremamente irônica.Outro momento de genialidade acontece logo no comecinho, quando um dueto simples, “S’accaso madama”, de repente sofre um revés inesperado com uma modulação, não para a dominante, mas para o tom relativo menor, costumo dizer que é nesse momento, quando Susanna introduz os desejos duvidosos do conde, que começa a intriga, e, de fato, o dueto que tinha um ar alegre termina angustiado.Mas de tudo, o mais fantástico, o mais maravilhoso, o mais espetacularmente espetacular das Bodas de Fígaro, são seus conjuntos, especialmente os finales dos três últimos atos. É por isso que coloco esta ópera em tão alto nível.De todos os grandes conjuntos, o finale do segundo ato é o mais elogiado, o mais comentado. Não é por pouco, não é exagero, certamente nunca uma música conseguiu ser tão… teatral. São vinte minutos de música ininterrupta, cobrindo uma ação de cinco cenas, vários momentos de tensão e distensão. Acho desnecessário ficar enumerando os efeitos desse verdadeiro monumento musical, mas o início dele, com a enérgica determinação do conde em matar Cherubino, e a música, em tom menor, com seus fortíssimos, aquela tensão imensa no ar, os cellos sublinhando as notas do Conde, e os sopros acompanhado a Condessa, é indescritível. E isso é seguido pela enorme distensão que é a aparição de Susanna, e as citações irônicas da cena anterior.O conjunto do final do terceiro ato é bem mais singelo e de menores pretensões, mas é de um brilhantismo típico de Mozart. Primeiro é sua ambientação, ele, inteiro, é um fandango que começa pelo meio, termina e só vai começar depois, quando é interrompido sem terminar; segundo que durante sua execução, as vozes estão em um outro compasso (o minueto do Don Giovanni vai levar essas arritmias a níveis surpreendentes) e consistem basicamente de recitativos, mas a tensão provocada pela insistência na seqüência harmônica e pelo silêncio permanece para ser concluída no quarto ato.O finale propriamente dito chega a ser chocante, tamanha sua força. Para começar ele se inicia com um tema e variação, fazendo do Conde a variação do tema de Cherubino, o que nos diz bastante do parelelo feito entre os dois “Don Giovannis” (a citação é proposital). Toda essa passagem é uma seqüencia vertiginosa de travestimentos, com Susanna cantando como Condessa, Condessa como Susanna, Fígaro escondido e repentindo enraivecido as frases do Conde (como cada personagem tem sua identidade, isso tem uma força expressiva considerável), o Conde com sua declaração de amor, uma das passagens musicais mais lindas de Mozart, mas com um sabor “estranho”, que aliás tem toda a cena, pela modulação inusitada e a orquestração única de cordas, e logo depois Susanna comentando como Susanna. Estou ficando confuso, mas é difícil explicar tudo isso. Não sei se preciso ficar enumerando mais passagens geniais, mas como não se comover com as “declarações” de Fígaro para Susanna travestida de Condessa, com sua música visivelmente zombeteira, e depois a cena da revelação, que gera o pedido de perdão do Conde. Ou como não se comover com a alegria sem limites do final?Ah, eu ficaria falando o resto da vida sobre essa grande ópera…

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