Prova de Direito Tributário II

Analise a nota fiscal abaixo e escolha uma das alternativas:

a) Puta paga ICMS – é mercadoria
b) Puta paga ISS – é serviço
c) Se for traveco paga IPI – é bem industrializado
d) Se for polaca paga imposto de importação
e) Puta é um bem isento de imposto, porque puta é cultura
f) Que cerveja cara da porra pra um puteiro!

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Ainda Mozart…

Ontem entrei no estúdio para o primeiro ensaio da gravação dos 2 concertos de Mozart para flauta que estou gravando essa semana, os dois concertos para flauta, em sol maior, K313, e em ré maior, K314 foram escritos por encomenda de um Holandes amador. No último movimento do K314 Mozart utiliza a mesma melodia da ária Welche Wonne, welche Lust da ópera O Rapto do Serralho.

Hoje foi dia do Concerto para Flauta Nº 1 K. 313,  que foi escrito em 1778 encomendada pelo flautista amador Holandês Ferdinand De Jean.

Tanto mais que encontramos no You Tube uma magnifica interpretação de um flautista Jean-Pierre Rampal, que foi minha segunde referencia, a primeira é a do Auréle Nicolet, que acho que inspirou muita gente , Pahud incluso.

Procurei como sempre faço fazer a minha, claro que depoiis de me ouvir, senti as influencias dos 30 anos que ouço esse concerto, no fim dos 3 takes de cada movimento, não por erro, mas por tentar articulaçoes diferentes, e novas pespectivas, gostei do resultado, testei unsa microfones novos, e realmente o som ficou muito bom, o Meu Ensemble Capriccioso, realmente se superou nas Articulações, do jeito que deve ser, optei por um grupo menor de 16 pessoas.

Afinação impecavel , fiquei muito feliz com o resultado. Hoje vou gravar minhas cadencias.

Mas sobre o concerto:

Este concerto, como seria de esperar é escrito na forma “clássica” (lento-rápido-lento – Hei-de repetir isto tantas vezes que irão concerteza fixar a fórmula) em três andamentos:

Allegro maestoso
Adagio ma non troppo
Rondo: Tempo di Menuetto

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Le Nozze di Figaro

a Mariana Garbuglio

Queriafalar um pouco de Mozart.

MozartGanhei um CD, depois de participar de uma espécie de “quiz” em um site, com as Bodas de Fígaro. Já a conhecia há tempos e não é nem a minha primeira gravação, nem a segunda, nem a terceira, mas quinta que tenho dessa obra. Porque eu tenho tanto? Um pouco por sorte de ganhar alguns concursos e heranças, mas também porque eu considero Le Nozze a maior ópera de todos os tempos e uma das grandes manifestações artísticas do século XVIII, se não a maior delas. E se há algum “concorrente”, é Don Giovanni, composta um ano depois, em 1787.Porque eu coloco esta ópera em tão alto nível? As razões são diversas, a começar, desagradando Salieri, delle parole. Poucas peças de teatro do fim do século XVIII podem ser comparadas a Le marriage de Figaro de Pierre Augustin Caron de Beaumarchais, seja pelo seu tom de tragicomédia (o autor foi fortemente influenciado por Lope de Vega, especialmente por Peribaí±ez y el comendador de Ocaí±a, que merece um post por aqui), seja por sua intriga ser a única legítima descendente de Molií¨re. E da Ponte compôs a partir deste um libretto, extremamente fiel, enxuto e livre dos trocadilhos, assonâncias de mal gosto que os libretistas da época tanto copiavam de Metastasio. Mozart pode se vangloriar de ter tido três excelentes libretos, número que talvez nenhum outro compositor pode ostentar, mas de todos, o de Le Nozze é o literariamente mais rico.E poi, la musica, é inegável que o jovem Mozart não merece ser tratado com desdém, pois sua obra é extremamente interessante, rica e vívida, entretanto, também parece inegável que o Mozart maduro é um dos maiores artistas de todos os tempos, e, de certa forma, Le Nozze é, não a marca da maturidade, mas seu primeiro grande auge.Nesta ópera Mozart introduz uma técnica extremamente eficiente e sutil que é carcterizar os personagens, não por meio de temas musicais, mas ritmicas, cada um dos quatro protagonistas, Figaro, Susanna, Conde e Condessa, mas especialmente as mulheres, têm características rítmicas marcantes, e estas características são derivadas das óperas que forneceram os personagens, ie. Fígaro e Susanna têm padrões buffos e o Conde e a Condessa de opera seria. Daí também sai o tipo de ária que eles cantarão, o que não significa que as árias sérias serão “trágicas” ou as buffas cômicas, Mozart brinca com isso de forma às vezes inacreditável: Cherubino que está sempre no âmbito “cômico”, canta uma ária derivada diretamente da tradição da opera seria “Non so pií¹ cosa son, cosa faccio”. Nós podemos encontrar outros exemplos de ária em sol menor com acompanhamento ostinato das cordas na Clemenza di Tito ou, para um exemplo mais fácil, a “ária” do primeiro movimento da sinfonia K. 550 (40).Um outro exemplo de como nessa ópera Mozart está lidando com a tradição é o dueto “Crudel, perchí¨ finora” no início do terceiro ato, a ambientação, a música e o próprio tema está completamente na ópera seria, mas o texto já é cômico, e a situação acaba se tornando extremamente irônica.Outro momento de genialidade acontece logo no comecinho, quando um dueto simples, “S’accaso madama”, de repente sofre um revés inesperado com uma modulação, não para a dominante, mas para o tom relativo menor, costumo dizer que é nesse momento, quando Susanna introduz os desejos duvidosos do conde, que começa a intriga, e, de fato, o dueto que tinha um ar alegre termina angustiado.Mas de tudo, o mais fantástico, o mais maravilhoso, o mais espetacularmente espetacular das Bodas de Fígaro, são seus conjuntos, especialmente os finales dos três últimos atos. É por isso que coloco esta ópera em tão alto nível.De todos os grandes conjuntos, o finale do segundo ato é o mais elogiado, o mais comentado. Não é por pouco, não é exagero, certamente nunca uma música conseguiu ser tão… teatral. São vinte minutos de música ininterrupta, cobrindo uma ação de cinco cenas, vários momentos de tensão e distensão. Acho desnecessário ficar enumerando os efeitos desse verdadeiro monumento musical, mas o início dele, com a enérgica determinação do conde em matar Cherubino, e a música, em tom menor, com seus fortíssimos, aquela tensão imensa no ar, os cellos sublinhando as notas do Conde, e os sopros acompanhado a Condessa, é indescritível. E isso é seguido pela enorme distensão que é a aparição de Susanna, e as citações irônicas da cena anterior.O conjunto do final do terceiro ato é bem mais singelo e de menores pretensões, mas é de um brilhantismo típico de Mozart. Primeiro é sua ambientação, ele, inteiro, é um fandango que começa pelo meio, termina e só vai começar depois, quando é interrompido sem terminar; segundo que durante sua execução, as vozes estão em um outro compasso (o minueto do Don Giovanni vai levar essas arritmias a níveis surpreendentes) e consistem basicamente de recitativos, mas a tensão provocada pela insistência na seqüência harmônica e pelo silêncio permanece para ser concluída no quarto ato.O finale propriamente dito chega a ser chocante, tamanha sua força. Para começar ele se inicia com um tema e variação, fazendo do Conde a variação do tema de Cherubino, o que nos diz bastante do parelelo feito entre os dois “Don Giovannis” (a citação é proposital). Toda essa passagem é uma seqüencia vertiginosa de travestimentos, com Susanna cantando como Condessa, Condessa como Susanna, Fígaro escondido e repentindo enraivecido as frases do Conde (como cada personagem tem sua identidade, isso tem uma força expressiva considerável), o Conde com sua declaração de amor, uma das passagens musicais mais lindas de Mozart, mas com um sabor “estranho”, que aliás tem toda a cena, pela modulação inusitada e a orquestração única de cordas, e logo depois Susanna comentando como Susanna. Estou ficando confuso, mas é difícil explicar tudo isso. Não sei se preciso ficar enumerando mais passagens geniais, mas como não se comover com as “declarações” de Fígaro para Susanna travestida de Condessa, com sua música visivelmente zombeteira, e depois a cena da revelação, que gera o pedido de perdão do Conde. Ou como não se comover com a alegria sem limites do final?Ah, eu ficaria falando o resto da vida sobre essa grande ópera…

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Videndentes…

para Silvia Schiaffino

AS SETE FACES DO DR. LAO

Charles Finney

(no qual a senhora Cassan, cidadã do município de Abalone, vai ao encontro de Apolônio de Tiana)

Uma viúva, a senhora Howard T. Cassan, leu o anúncio do circo do dr. Lao às dez e quinze. “…haverá um adivinho… protegido pelo véu do mistério… profecias invariavelmente exatas…”

A senhora Cassan estava sempre à procura de videntes. Quando não havia nenhum ela mesma deitava cartas ou fazia sessões mediúnicas com um copo virado de cabeça para baixo. Havia pedido que lhe lessem a sorte tantas vezes que a fim de cumprir todas as previsões ela teria de viver mais noventa e sete anos e conhecer e enfeitiçar todo um regimento de homens altos e morenos. –

Vou lá perguntar a esse homem… vamos ver… é, vou lá perguntar a ele sobre aquele poço de petróleo com que sonhei – disse consigo a senhora Howard T. Cassan.(…)

A viúva Howard T. Cassan chegou ao circo com seu frívolo vestido marrom e seus sapatos baixos e encaminhou-se diretamente para a tenda do vidente. Pagou a entrada e sentou-se para escutar seu futuro. Apolônio de Tiana avisou-a de que ela ficaria desapontada.- Não hei de ficar, se o senhor me disser a verdade – disse a senhora Cassan. – O que desejo saber, antes de mais nada, é quando vai jorrar petróleo naquele meu alqueire no Novo México.- Nunca – respondeu o vidente.- Bem… então, quando vou me casar outra vez?- Nunca.- Muito bem. Que espécie de homem vai surgir em minha vida?- Não haverá mais homens em sua vida – disse o vidente.- Bem, então do que me adianta viver, se não vou ficar rica, não vou me casar outra vez, nem vou conhecer novos homens?- Não sei – confessou o profeta – Só leio o futuro. Não o julgo.- Bem, eu paguei. Leia meu futuro.Apolônio leu:- Amanhã será como ontem e depois de amanhã como anteontem – disse Apolônio. – Vejo o resto dos seus dias como uma tediosa coleção de horas. A senhora não viajará a nenhum lugar. Não terá pensamentos novos. Não experimentará nenhuma nova paixão. Sua idade aumentará, mas não sua sabedoria. Crescerá seu formalismo, mas não sua dignidade. A senhora não tem na juventude, daquela curiosa simplicidade que no passado atraiu alguns homens, nada resta, nem a senhora as poderá reconquistar. As pessoas lhe falarão ou visitarão por pena ou solidariedade. Não porque a senhora tenha qualquer coisa a lhes oferecer. Já viu uma velha haste de milho que amarelece e definha, mas se recusa a morrer, na qual alguns passarinhos pousam de vez em quando, quase sem notar sobre o que estão pousados? Isso é a senhora. Não consigo imaginar qual seja seu lugar na organização da vida. Uma coisa viva deveria criar ou destruir, segundo sua capacidade ou capricho, mas a senhora não faz uma coisa nem outra. Vive a sonhar com coisas bonitas que gostaria que lhe acontecessem, mas que nunca acontecem; e imagina vagamente por que as jovens vidas ao seu redor, às quais ocasionalmente censura por uma suposta impropriedade, nunca lhe dão ouvidos e parecem fugir à sua aproximação. Quando a senhora morrer, será sepultada e esquecida, somente isso. Os agentes funerários a fecharão num ataúde à prova de vermes, com o que lacrarão, para a própria eternidade, a argila da sua inutilidade. A julgar por todo o bem e todo o mal, toda a criação e toda a destruição que sua vida pudesse haver provocado, a senhora poderia perfeitamente jamais ter existido. Não vejo propósito em talvida. Só vejo nela um desperdício chocante, vulgar.- Eu entendi o senhor dizer que não julgava vidas – disse a senhora Cassan rispidamente.- Não estou julgando. Estou apenas divagando. Hoje, por exemplo, a senhora está sonhando em achar petróleo num alqueire de terra que possui no Novo México. Não existe petróleo lá. A senhora sonha com um homem alto, moreno e belo que venha a cortejá-la. Não virá homem algum, nem moreno, nem alto, nem de qualquer espécie. No entanto, a senhora continuará a sonhar, apesar do que lhe digo. Continuará a sonhar durante a pequena ronda de suas horas, costurando, balançando-se, mexericando e sonhando. E o mundo gira, gira, gira. Crianças nascem, crescem, casam-se, adoecem e morrem, mas a senhora fica em sua cadeira de balanço, cose, mexerica e leva a vida. E a senhora tem voz ativa no governo, e um número suficiente de pessoas votando igual poderia mudar a face do mundo. Há algo terrível nessa idéia. Mas sua opinião pessoal sobre qualquer assunto no mundo é absolutamente desprezível. Não, não consigo atinar com a razão da sua existência.- Não lhe paguei para atinar com coisa alguma. Diga apenas meu futuro e pronto.- Estive dizendo seu futuro! Por que não ouve? Deseja saber quantas vezes ainda comerá alface ou ovos cozidos? Quer que eu enumere as vezes em que gritará bom dia para a vizinha sobre a cerca? Devo dizer-lhe quantas vezes mais a senhora comprará meias, irá à igreja, assistirá a filmes? Deverei fazer uma lista mostrando quantos litros de água a senhora ferverá no futuro para o chá, quantas combinações de cartas receberá no bridge, quantas vezes o telefone tocará nos anos que lhe restam? Deseja saber quantas vezes voltará a censurar o jornaleiro por não deixar o jornal no lugar que menos a irrita? Devo dizer-lhe quantas vezes mais a senhora se aborrecerá por chover ou deixar de chover, segundo seus caprichos? Devo calcular quantas moedas há de poupar regateando no mercado? Deseja saber tudo isso? Pois nisso, senhora Cassan, se resume seu futuro: fazer as mesmas coisas inúteis que tem feito nos últimos cinqüenta e oito anos. A senhora se defronta com uma repetição do seu passado, uma recapitulação dos algarismos na máquina de calcular de seus dias. Há apenas um algarismo brilhante, talvez: houve um pouco de amor em seu passado; mas não haverá nenhum em seu futuro.- Bem, devo dizer uma coisa: o senhor é o adivinho mais estranho que já vi em minha vida.- É minha cruz só ser capaz de dizer a verdade.- O senhor já amou?- Naturalmente. Mas por que a senhora pergunta?- Há um fascínio estranho em sua franqueza brutal. Eu imagino uma moça, ou melhor, uma mulher experiente, lançando-se a seu pés.- Houve uma moça, mas ela nunca se lançou a meu pés. Eu me lancei aos dela.- O que ela fez?- Ela riu.- Ela o magoou?- Sim. Mas depois disso nada me magoou muito.- Eu sabia! Sabia que um homem com sua terrível crueldade mental devia ter sido ferido por uma mulher, em alguma época. As mulheres são capazes de fazer isso a um homem, não é?- Creio que sim.- Pobre homem, pobre homem! O senhor não é muito mais velho do que, não é? Eu também fui magoada. Por que não poderíamos ser amigos, ou mais que amigos, quem sabe, e juntos remendar os farrapos de nossas vidas? Acho que eu seria capaz de compreendê-lo, consolá-lo e tomá-lo sob meus cuidados.- Minha senhora, eu tenho quase dois mil anos de idade, e sempre fui solteiro. É tarde demais para começar.- Ah, como o senhor é engraçado! Eu adoro brincadeiras! Nós nos daríamos esplendidamente, os dois, tenho certeza!- Sinto muito. Eu lhe disse que não haveria mais homens em sua vida. Não tente me fazer com que eu me desdiga, por favor. A consulta terminou. Boa tarde.A senhora Cassan começou a dizer alguma coisa, mas não havia mais ninguém com quem falar. Apolônio havia desaparecido com aquela presteza dominada apenas pelos mágicos de maior experiência. A senhora Cassan saiu para o clarão da tarde ensolarada. Lá fora encontrou Luther e Kate. Isso foi exatamente dez minutos antes da petrificação de Kate pela Medusa.- Querida – disse a senhora Cassan a Kate – esse adivinho é o homem mais magnético que já vi. Vou falar com ele de novo hoje à noite!- O que foi que ele disse sobre o petróleo? – perguntou Luther.- Ah, ele me encorajou muitíssimo!!!

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A Perna Cabeluda

Raimundo Carrero

[Diário de Pernambuco, Recife, 01 / 02 / 1976]

O repórter, apressado, nervoso, entrou na redação do jornal. Colocou o papel na máquina, mas estava de tal forma agitado, que não sabia como escrever. Percebendo sua indecisão, o editor procurou saber o que estava acontecendo. Gago, voz presa na garganta, precisou de alguns segundos, ainda, para ordenar as palavras. “A perna cabeluda está em Olinda” disse, esperando a reação do chefe. Uma pessoa fora agredida, levara três pernadas no pescoço, uma na barriga, sangrando fora socorrido por populares e estava agora no Hospital da Restauração. E não fora a única vitima. Invadira também a residência de uma bela moça, não respeitara pai nem mãe, com uma rasteira derrubou-a no meio da sala e diante dos olhos estarrecidos da família, que não sabia como reagir, praticou agressões.
Foi um corre-corre na rua, gente chamando a polícia, mulher chorando abraçada com o marido, irmãos e parentes, as mais piedosas e religiosas rezando nos pés dos santuários. A pobre moça, coitada, gemia, gritava, pedia proteção. Não era fácil, no entanto, agarrar a perna. Ágil, saltava para todos os lados. Teve um rapaz, herói anônimo, que ainda pulou a janela da residência, mas nada pode fazer porque logo recebeu uma violenta pernada na cabeça, caiu sangrando, batendo quase morto. A perna cabeluda somente se deu por vencida quando foi escutado o gemido do carro da polícia. Saiu correndo pela porta dos fundos, meteu-se numa rua estreita, atravessou um beco e desapareceu num matagal. Os homens da rua, penalizados com o choro da moça, formaram logo uma “coluna”, armaram-se de facas, revólveres, pedaços de pau e saíram em sua perseguição. Nessa hora os policiais já vinham chegando. Juntaram-se aos guerreiros, saíram em busca da perna criminosa. Foi que um guerreiro mais afoito, que corria em frente de todos, armado com um revólver, uma peixeira, e um canivete, deu um grito, caiu sangrando, o corpo todo dolorido. No escuro não pôde ver a perna cabeluda escondida atrás de uma moita. Vingativa, não apenas deu-lhe uma rasteira, como chutou sua boca e ficou pulando sobre seu peito. Os outros homens correram em seu socorro, mas havia a surpresa: confundindo-se com a escuridão, a perna pulava mais que saci-perêrê, agilíssima, de um lado para o outro, cai aqui, cai aculá “ela está aqui” “ela está ali”, um caindo por cima do outro, cabeça lascada, braço quebrado, barriga rasgada. Pior foi quando começou a chover. Trovões, relâmpagos, muita água, sangue correndo na lama. Confundindo-se, os guerreiros agrediam-se, esmurravam-se. Um fuzuê dos diabos. Quando a perna decidiu desaparecer, ouviu-se uma gargalhada medonha, três soluços e um arroto.
Derrotados, os guerreiros retornaram para casa, feridos, alguns em macas, os policiais jurando que ela seria presa ainda aquela noite, todo contingente seria acionado, não haveria escapada. Quando entraram na rua iluminada, as mulheres esperando nas janelas – umas chorando, outras conversando agitadas -, parecia uma procissão de desgraçados. O socorro foi logo providenciado. Mesmo no carro da polícia os mais feridos foram conduzidos para o hospital. Parecia o fim do mundo, correu um boato na rua que era o início do apocalipse, era preciso começara rezar com muito fervor, pois uma multidão de estrelas já se precipitavam do céu e uma legião de mortos vestiam os seus corpos para sair dos túmulos, cobrando promessas aos vivos. As moças choravam, os rapazes corriam para ir à igreja, queriam se confessar. Teve cabeludo que raspou o cabelo, afrouxou as calças e vestiu o terno. As mulheres cobriam as barriguinhas e encompridavam os vestidos.
Mas foi que a agitação cresceu mais ainda, quando já se imaginava que era chegado o momento de dormir sossegado. Os gritos de uma mulher foram escutados, misturados com uma pancadaria, voz de homem furioso berrando. De repente, a mulher foi atirada na rua, bateu com a testa no chão, quebrou a cabeça. O homem furioso apareceu com um revolver na mão. Foi logo contando: chegara em casa cansado, louco para dormir, e quando entrou no quarto, o que viu, ao lado da mulher, estava deitada a perna cabeluda, morrendo de rir. Perdeu a paciência, puxou a mulher pelos cabelos, esfregou-a na parede. E a perna gargalhava, dava saltos em cima da cama, dançava samba, rumba e frevo. Insatisfeita, ainda deu-lhe um chute na barriga e saiu correndo. Ninguém mais podia se conformar, era mesmo o fim do mundo. Mesmo os mais afoitos não se decidiam a perseguir a malvada. Socorreram, no entanto, a mulher ferida. Vários carros da policia apareceram para proteger o povo da rua. Os policiais traziam metralhadoras, canhões, revólveres, gás lacrimogêneo, o diabo. Armaram esquemas, trancaram as ruas, esquinas, vielas. Desistiram, porém, quando surgiu a notícia, ninguém sabe quem deu: a perna cabeluda estava pintando o diabo em Boa Viagem. ”

Alguns anos antes….

Entre as lendas urbanas mais curiosas do Nordeste está sem dúvida a da Perna Cabeluda, uma entidade sobrenatural que teria assombrado as ruas do Recife durante a década de 1970. Aparecendo onde menos se esperava (e por falar nisso, onde é que alguém esperaria que aparecesse?), esta criatura era o oposto-simétrico do Saci Pereré. Ou seja, era uma perna-sem-pessoa, em vez de uma pessoa-sem-perna. Surgia pulando (eu já ia dizer ôpulando num pé:), atacava os transeuntes, dava chute em todo mundo, e depois fugia pulando.
Foi cantada em verso e em prosa. Apareceu como protagonista em folhetos de cordel como “A Perna Cabeluda de Tiama e São Lourenço de José Soares, inclusive um em que ela enfrentava outra criatura mítica: A véia debaixo da cama e a Perna Cabeludão de José Costa Leite. Apareceu também em um vídeo de Marcelo Gomes, “A Perna Cabeluda” (1995). Figurou em shows de Chico Science & Nação Zumbi: Chico dançava com uma perna de pano estufada, e depois a jogava no meio da platéia. Eu próprio a utilizei como tema num curta para TV de 40 minutos para o programa “Viva Pernambuco”, em 1996, dirigido por meu amigo Romero de Andrade Lima e Cláudio Assis.( esse ultimo é meio pirado fez um filme de muito mal gosto chamado Amarelo Manga, Aline se você e meuos ouitros 9 leitores ver esse filme, aquilo é ficção forçada viu)
A Perna Cabeluda é um bom exemplo de como surgem essas criaturas folclóricas. Uma vez eu estava em Recife conversando com o escritor Raimundo Carrero, que me deu uma versão para o surgimento dessa lenda. Ele e Jota Ferreira tinham um programa de rádio (pelo que me lembro ele era redator e Jota Ferreira o apresentador, mas posso estar enganado, afinal eu era muito criança mas lembro do bafafa…). E uma noite, entre uma música , meu avó era um ficcionado em rádio, e depois de uma ou outra deram uma notinha humoróstica, mais ou menos assim: “Pois é, meu amigo, a vida no Recife não anda nada fácil!…

Chega agora a nossa redação a notícia de que Fulano de Tal, guarda-noturno, chegou em casa depois de uma jornada de trabalho e deitou-se para dormir ao lado de sua esposa. Ouviu um barulho, e ao olhar para baixo viu uma perna cabeluda embaixo da cama!”A intenção era sugerir, com a imagem da perna cabeluda, a presença do Urso ( no nordeste significa amante da esposa) A nota provocou muitos risos, e no dia seguinte, eles voltaram á carga. E atençao, minha gente… Sicrano de Tal, morador da Imbiribeira, chegou em casa de viagem, e para sua surpresa viu a perna cabeluda fugindo pela porta da cozinha! E aí não parou mais. Usada inicialmente como uma sinídoque visual (a parte pelo todo), a perna acabou ganhando vida própria.

Isto não quer dizer que qualquer coisa inventada vire automaticamente uma lenda. Neste caso específico virou porque a imagem resultante ficou ao mesmo tempo absurda e engraþada, ou pelo menos assim pareceu A galera onde a história comeþou a circular (ouvintes de rádio dos suburbios recifenses). Imagens e figuras semelhantes são lançadas diariamente no caldeirão cultural. Mais um processo aleatório. Umas pegam, outras não. A Cultura popular talvez se defina por este aspecto aleatório, onde não se pesquisa, não se planeja, e as criações dÒo certo meio que por acaso. A verdade é quem em pouco mais de 30 anos a “`Perna Cabeluda” teve mais de 5000 vítimas, gente que jurava que teve um filho com ela, com foto documetada em jornal e tudo…

James

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Reminicências…

Ha alguns dias eu me desentendi com uma pessoa muito mediocre, que me fez mandar um e mail pra ela a situando um pouco, nem sei se surtiu efeito, pois acredito que ela nem deve ter entendido , mas relendo com calma esse e mail, ele me trouxe algo interessante, éque lembrei que hoje é um dia muito especial pra mim, pq faz exatamente 20 anos que pisei num palco pela primeira vez. Lembro exatamente daquele dia…eram 16:30, acompanhado do amigo Cesar Michiles na segunda flauta, e da pianista Heloisa Maibrada. Um trio de Franz Benda.

A emoção de entrar no palco, o frio na barriga… me trazendo lembraças longinquas, a primeira flauta que eu ouvi no ventre materno, Jean Pierre Rampal tocando o Adagio de Tomaso Albinone, depois o outro flautista de referencia era Roger Bourdin…. Lembro do primeiro desejo de tocar flauta, vetado pelo meu pai. E fiquei com aquilo preso dentro de mim, e nessa tarde de fevereiro, eu ia por tudo isso pra fora, eu ia tocar no palco, com publico me assistindo.

Lembro bem quando entrei , e dei as primeiras notas, algo se apoderou de mim, a musica falou, ali nascia James Strauss. foi um sucesso, embora o meu professor na epoca nao ficou muito contente por eu ter ornamentado as repetiçoes, algo queele não havia ensinado, na epoca eu o achava limitado, hoje eu sei que ele queria me dar disciplina, que eu realmente precisava. E de la pra ca tanta coisa aconteceu, lembro ate de um concerto no Theatro Santa Izabel, com o meu amigo Cesar Michiles, uma sonata de Handel para duas flautas…

Teatro cheio, e no meio de uma adagio…poetico….eu abri os olhos….e vi aquele ser no meio da plateia, pulando e andabdo…Um Rato gigantesco, tentei nao rir mas era engraçado, pois ninguem viu…

Alguns anos mais tarde, eu estava me diplomando pelo Conservatorio Pernambucano de Musica, primeiro flautista diplomado la em 63 anos de casa. Virei celebridade, sai no Jornal, sai na Globo, na BAND e no SBT. Logo depois veio a Recife um maestro Frances François Carry, e depois de um curso de música de câmara, apreciou muito minha interpretação de uma sinfonia de Gounod pra sopros, que tem um lindo adagio com solo de flauta, que eu estava particularmente inspirado.

E me agraciou com uma bolsa de estudosm integral para estudar em Paris, nesse mesmo ano, fui revelação do festival de inverno de Campos do Jordao, sai na globo denovo, dessa vez com o Mauricio Kubrusly, sai na Folha, no Estadão…em setembro estava em Paris….

Tenho saudade da inocencia daqueles anos , da criança James, em pensar que os sonhos que sonhei naquela época, que pareciam tão distantes , tenho quase todos realizados, por isso é bom sonhar grande, para ser grande. E perseguir os sonhos, ir atras, lutar por eles.



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Meu primeiro concerto com orquestra…

Essa semana estou mesmo nostalgico, me veio a memória, meu primeiro concerto com orquestra, que foi com a melhor orquestra do Recife naquela época, a Orquestra de Camara da UFPE, com todas as lendas do cenario musical de Pernambuco. Mas não foi fácil, meu pai não aceitava o fato de eu ser flautista,logo quando eu disse a ele que queria fazer um solo com orquestra ele logo pos mil problemas, que eu não estava pronto ….Eu havia conseguido umas partituras do Petre Rosso ( Antonio Vivaldi) , tinha esse apelido por ter uma grande cabeleira ruiva, Vivaldi foin realmente um grande compositor e fez uma sério de 6 concertos para flauta que estão em seu opus:10 , essa coletanea tem 6 concertos e 5 deles com nomes distintos, o numero 1 ” La tempesta di Mare”, o 2 “La Notte”, o 3 “Il Cardelino” , o 5 ” con sordino”, e o 6 “il Cavallo”…Mas eu tinha uma predileção pelo 4, que não tinha nome, mas eu o achava lindo e quis toca-lo, ai surgiu a figura de um amigo de meu pai , Eduardo Rodolpho Puglia, um contrabaixista Uruguayo, hoje falecido. O Eduardo era muito amigo da familia, e eu falei com ele meu descontetamento com meu pai, ele me chamou em segredo para ir a casa dele, e pediu para eu tocar pra ele, logo depois ele me pergunta, “James, vc tem, a partitura?”, eu respondi, “sim aqui comigo, tenho as partes de todos da orquestra” …Ele disse, me empresta e aguarde intruciones, listo?” Eu disse ok.

Uma semana mais tarde, ele me liga e diz, vem com a flauta amanha na Universidade.

Detalhe, meu pai não sabia de nada, so que um flautista iria tocar Vivaldi com orquestra, e na verdade meu pai queria mer fazer uma surpresa e mostrar um cara bom tocando e dizer que faltava muito pra chegar a ser solista…

Chego lá, meu pai ficou surpreso ao me ver la, estavam todos lá, todas aquelas lendas que eu ja conhecia desde criança, o Spalla Abrahan Levison , um judeu argentino, a Fanny, o cello magico da Marisa Jonhsson…

Meu pai lívido, olhei pra tras e Eduardo deu uma piscada pra mim, meu pai foi enganado por todos. Aquilo me deu um ar de Jubilo..e naquele primeiro ensaio, tocamos juntinhos, dei conta do recado, estava nervoso, mas me concetrei e fui la, no fim do ensaio a Marisa chegou pra mim e disse, na frewnte de meu pai ” Teu pai escondendo o jogo, dizendo que não sabia se vc tinha talento e vc aqui detonando, parabens”

Meu pai foi pra casa e naum trocou uma palavra comigo no carro….

3 dias depois era o grande dia, auditorio da Biblioteca da UFPE, eu tinha 13 anos, ia fazer 14 so em novembro e estavamos em outubro de 1988…

A orquestra começou com uma Abertura de Handel, depois umas peças curtas de Bocherini, e finalmente chegou a minha vez, ai a coisa tomou um rumo diferente , Eduardo e Jarbas Maciel, músicos da orquestra foram dizer algumas palavras, sobre o solista…Meus olhos ficaram umidfos, pois não sabia que era observado assim, falaram que me pegaram nos braços quando eu tinha so alguns meses, de que todos falavam de minhas disposições precoces, e estavam muito felizes em participarem de meu primeiro concerto importante, que meu pai deveria estar orgulhoso de mim…
A sala estava cheia, confesso que quando entrei, deu um frio na barriga, mas fui la e fiz bonito, em Vivaldo sempre se tem muitos dialogos com o primeiro Cello….lembro que eu tocanva e olhava para a Marisa nos olhos, e ela piscava pra mim e sorria, em resumo foi um sucesso.
Hoje mais da metade da orquestra ja passou pra o andar de cima, mas ficartam para sempre na minha memoria, agradeço sempre a todos, que de uma forma ou outra acreditaram em mim.
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